Crônica - O DRAMA DA SURDEZ
Antologia IV Concurso Marise Andreatta
Internacional Justiça e Igualdade Social
Diversos Autores - Celeiro Escritores - SP
2017

 

DEPOIMENTO DE UM SURDO.

CRONICA SOBRE SURDEZ.

DIFICULDADES ENFRENTADAS PELOS SURDOS EM NOSSA SOCIEDADE.

DEFICIENCIA AUDITIVA CARACTERISTICAS.

SURDOS E OUVINTES DIFERENTES PERSPECTIVAS.

 

Leia também a Poesia
DEFICIENTES AUDITIVOS
 

Voltar para o Índice

O DRAMA DA SURDEZ
Rosimeire Leal da Motta Piredda

Obs.: Depoimento de quem se tornou surda.

 

O que há de comum entre mim e LUDWIG VAN BEETHOVEN (o maior e o mais influente compositor da música clássica universal)? A inspiração poética que vem do íntimo e é revelada em nossas criações e a SURDEZ. Os primeiros sinais de ensurdecimento surgiram antes que nós completássemos 30 anos, custamos a assumir e foi impossível esconder porque era óbvio.

Minha mãe e minha irmã tinham este problema: é hereditário! Se eu tivesse filhos, alguns deles poderiam desenvolver esta deficiência. Gradativamente ia perdendo a minha capacidade de identificar o som e hoje se tornou grave, faço leitura labial. Assisto pouco à televisão (leio as legendas na tela mas, às vezes, são diálogos longos que não dá tempo para ver as cenas e cansa as vistas). Guardei minha coleção de CDs de músicas eruditas (só me resta fechar os olhos e resgatar em minha memória as maravilhosas sinfonias). Em casa escuto sons na rua e penso que é alguém gritando, entretanto ao abrir a janela vejo que são cachorros latindo. Ir a consultas médicas somente com acompanhante. Outros, sabendo que sou surda, quando me encontram preferem falar com a pessoa que está ao meu lado ou me evitam. E ainda há aqueles que torcem os lábios ou reviram os olhos para cima demonstrando seu desgosto ou os que perdem a paciência e encerram a conversa. Muitos não entendem que eu posso compreender ao olhar para os lábios e se atrevem a fazer comentários que jamais teriam coragem de dizer em minha presença, por exemplo: duas senhoras, uma falou para a outra: "Lá vem à surda!" Ah, agora fiquei invisível: sim, pois muita gente finge que não me vê e passa direto. O ato de ter que repetir palavras provoca um transtorno sobrenatural!

Paciência é a virtude que consiste em suportar os males e incômodos sem reclamar, sem se revoltar.

Uso um pequeno dispositivo dentro e atrás da orelha direita e esquerda: eles emitem sons mais altos para que eu possa ouvir, comunicar e participar plenamente das atividades diárias. O aparelho auditivo é um simples amplificador de som e com ele eu ouvia bem; infelizmente chegou um dia que não servia para mim.

Notei a perda auditiva em 1998. Era secretária e sentia dificuldade para entender claramente e era necessário aumentar o volume dos fones do telefone. Deixei de atender telefone e falar pessoalmente com os clientes. O ar condicionado ou o ventilador abafava o microfone do aparelho auditivo e dificultava a compreensão. Trabalhava nesta empresa há 26 anos (desde 1989) e em 2007 quando o problema se agravou, me senti ignorada, isolada, abandonada, quase sem serviço. Em minha profissão, dialogar com as pessoas é imprescindível e ergueram uma barreira diante de mim, quase ninguém tinha paciência para falar comigo, fugiam de mim. Fingia que havia entendido para não causar aborrecimentos. Estava começando a sentir dores de cabeça fortes continuas e o médico me disse que era nervosismo. Fora do ambiente de trabalho, dos locais com ar condicionado ou ventilador e olhando para quem fala, dá para "ouvir" satisfatoriamente. Porém, faço leitura labial de uma pessoa de cada vez e em grupo não percebo que há outros participando da conversa.

Sim, já chorei de tristeza! Mas, tenho senso de humor e quando ocorrem incompreensões e entendimentos equivocados, digo que sou a velha surda do antigo programa da televisão "A Praça da Alegria" (2001).

Alcancei o grau mais elevado da perda auditiva que é severa e profunda: de 100%, ouço 8%. Devido a isso, não há outro aparelho auditivo adequado para mim. Existem outros melhores do que este que eu uso, porém muitíssimos caros e não auxiliam a ouvir perfeitamente: exercem a função de estimular os nervos da audição. Ouvir ruídos e vozes incompreensíveis com o aparelho que uso, é um consolo do que conviver com o silêncio total.

O implante coclear ajuda a perceber os sons sem compreender a fala. A pessoa não voltaria a ouvir normalmente, então esta ultima opção está descartada para mim, pois é a minha atual realidade.

Tentei aprender libras (língua de sinais), mas não consegui, pois sua gramática não se baseia na Língua Portuguesa.

Há uma diferença entre o surdo tímido e o extrovertido. Quem sabe se exprimir com clareza, descobre uma maneira de expressar suas ideias e continuar fazendo parte do mundo dos que ouvem.

As pessoas valem mais do que suas deficiências. Beethoven e eu tentamos lutar contra algo que era impossível mudar, mas a sensibilidade que habita em nós sobressaiu e não permitiu que nos deixássemos abater por uma situação que não havia como consertar: há muito mais em nós do que estes problemas inesperados.

Discriminar também significa assassinar a alma de uma pessoa, pois é no coração que o efeito é mais destruidor.

Quem deseja se sentir humilhado? Reflita sobre o que JESUS disse: "Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam...". (Mateus 7:12).

------------------------------------------------------------------


 

 

Problemas Enfrentados Pelos Surdos. Dificuldades Enfrentadas Pelos Surdos Em Nossa Sociedade. Dificuldades No Dia A Dia De Um Portador De Deficiencia.

 
\n